Aulas online e videoconferências: estamos todos tentando acertar.

por | 13 jul, 2020

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Cinco dicas de como melhorar a aprendizagem online e o trabalho remoto através da experiência de uma escola que se prepara para esse momento há mais de dois anos.

Em tempos de COVID-19, quem nunca saiu de uma aula ou uma videoconferência com a sensação que ficou horas conectado e não absorveu nada? Ou se sentiu exausto ao final do dia, mesmo não tendo aquela rotina intensa que normalmente justificaria tal estado de exaustão mental?

Passei a entender melhor esse sentimento quando, por acaso, li um artigo que conta a história de uma escola nos Estados Unidos que enfrentou os desafios e se preparou para lecionar de forma online. Mais do que uma experiência sobre crianças, esse artigo é um compilado de boas práticas que pode e deve ser extrapolado para o nosso dia a dia.

Pensei, então, em compartilhar o que aprendi, uma vez que estamos sendo desafiados pela pandemia a buscar uma boa aprendizagem através das telas, independente de sermos crianças ou adultos. Segundo o LinkedIn, houve um aumento de 130% no número de profissionais que também estão estudando e se aperfeiçoando, além das incontáveis reuniões remotas, que também passam algum tipo de conhecimento e aprendizagem.

A escola abordada no artigo, localizada em Maryland, era afetada eventualmente por nevascas, e trabalhou em cima desta questão, procurando descobrir a “fórmula ideal” para aulas online. Ficou claro que o desafio enfrentado pelas crianças de Maryland mostrou-se parecido com aqueles que nós, adultos, também lidamos.

Através da experiência observada, podemos classificar aa aulas ou reuniões online em dois tipos:

Conteúdo insuficiente: aulas ou reuniões “curtas”, em torno de até 40 minutos, que deixam a sensação de que são exposições longas, com muita informação, mas que geram o sentimento de que houve pouca profundidade no aprendizado (“deep learning”). Isto acontece porque o cérebro se cansa e gera a sensação de que amanhã tudo o que foi falado será esquecido, ou que o conhecimento exposto foi muito raso, considerando o tempo empreendido.

Conteúdo massivo: aulas ou reuniões “longas”, com mais de 50 minutos, que “fritam” o cérebro, gerando ansiedade e desejo para acabar o quanto antes ou gerando uma dispersão através do redirecionamento da nossa atenção com celulares, televisores ou alternativas mais interessantes. Esse sentimento aumenta ainda mais quando utilizamos uma tela com muita claridade, com letras pequenas, ou outros recursos que exigem grande esforço para ler ou ver.

O problema não para por aí: normalmente uma reunião improdutiva ou exaustiva reverbera por todo o dia, gera cansaço e exige de nós tempo para nos recuperarmos. Além disso, nos tempos atuais, são raros os dias em que há somente uma reunião/aula: normalmente os alunos possuem de quatro a seis horas diárias de aula, enquanto os adultos enfrentam uma ou mais reuniões que podem durar o dia inteiro, com vários temas diferentes, sem tempo hábil para “mudar a chave” ou para reorganizar os pensamentos e rotinas.

A solução adotada pela escola de Maryland é simples e remete a soluções que todos sabemos, mas acabamos não praticando. São elas:

1. Tenha foco. Selecione o que é relevante, o que precisa ser discutido de verdade, o que proporcione uma ação e uma consequência objetiva ou direta. Temas que não serão cobrados nas provas, que não impactam o processo de aprendizagem futura e que não dizem respeito ao conhecimento devem ser desprezados ou deixados para depois. — “What do I want my students to still know, value and be able to do in two years time?”

2. Tenha rotina. Não crie surpresas: tenha um horário similar todos os dias, crie recorrência e estabilidade no planejamento. Nada me gera mais confusão mental do que uma reunião semanal ocorrer cada semana em um horário diferente; se este tipo de mudança é complexa para adultos como eu, assim também será para as crianças. A organização e a previsibilidade diminuem a ansiedade e a perda de tempo com assuntos fúteis e desgastantes, como não saber que horas é preciso que fazer o quê. — “We also knew that the anxiety and weirdness of our current times had created an increased executive functioning struggle. So we made classes start on the hour, with the same basic routine each day.”

3. Durma bem. A escola resolveu iniciar as aulas mais tarde, para que os alunos pudessem dormir melhor e assisti-las descansados; também organizou os horários e tarefas de casa de forma que os alunos não precisassem acessar o computador após escurecer. Ora, se estamos trabalhando de casa e podemos trabalhar em qualquer horário, por que não dormir bem? Trabalhar descansado melhora a produtividade; evitar telas durante a noite melhora a sua produção de melatonina e diminui a sensação de cansaço, estresse e a falta de sono.

4. Crie intervalos, de verdade. A escola aumentou os intervalos entre as aulas para quinze minutos e tornou a pausa para almoço mais longa. Fazer pausas tem incontáveis vantagens: proporciona tempo para “assentar” o conhecimento ou a informação; quebra a ansiedade e o sentimento de estar atrasado para a próxima atividade; permite relaxar, baixar a atividade cerebral para recuperar energias; permite a realização de outras tarefas rotineiras, como lavar louça, responder mensagens pessoais ou outras coisas que você faria de forma imediata, ainda que não fossem urgentes. — “we built in 15-minute breaks between classes and a larger slice of time to meet with advisors and teachers during Office Hours. Lunch was lengthened so students could eat with siblings, parents or guardians, or online with classmates for elementary students, which proved extremely popular.”

5. Empodere sua audiência, desconecte-se. Ao invés de despejar conteúdo e dever de casa, os professores passaram a ouvir o aluno, deixando-o decidir e ser responsável pelo que é ensinado. Encurte reuniões, defina os objetivos, dê autonomia e tempo para as coisas amadurecerem. Ao invés de uma reunião longa com muitas pessoas presentes, delegue o tema a uma pessoa, deixe-a estudar e propor uma solução. Ao delegar a tarefa, aquele que a recebeu irá para o offline, e o senso de responsabilidade fará com que ouça pessoas, pesquise soluções, amadureça e enriqueça o tema para proporcionar uma decisão. — “We elevated project-based learning that didn’t revolve around screens. But we also made sure we took a research-informed approach to project-based learning”

Por fim, saúde mental é tudo. Utilize um caderno ao invés de um editor de textos, ligue ao invés de fazer “meets”, rascunhe, leia um livro, crie tarefas fora da tela. Exposição às telas causa extremo cansaço, prejudica a vista, a concentração e desregula o relógio biológico. — “We concentrated on creating an even better balance between the academic growth, social and emotional development and overall well-being of our students”

Esses princípios podem parecer simples, mas são eficazes: Encurtar o tempo em frente às telas, incentivar uma boa rotina, valorizar o tempo “livre” de reuniões com atividades carregadas de autonomia e poder de decisão e retomar relacionamentos interpessoais, afastados pelo isolamento social, tem um poder revigorante.

Ler este artigo foi uma bela coincidência, já que há duas semanas venho me questionando, pensando em como melhorar minha produtividade e balancear melhor minha vida pessoal e profissional. Curiosamente, todas reflexões que fiz me levaram a praticar a maioria dessas sugestões e geraram uma melhora importante no meu dia-a-dia. Espero que possam fazer o mesmo por você.

Abaixo o link para o estudo de caso mencionado no texto:

How Brain Research Helped Retool Our School Schedule for Remote Learning
Using Neuroscience to Launch a Research-Informed School Schedule

Quem assina este artigo é Marcelo Michelli, economista, e um dos voadores do nosso time.

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