Renata Bento – Saúde emocional em tempos de pandemia

por | 20 mar, 2020

Leitura: 5 minutos 

O que o coronavírus exige de nós? 

O desenvolvimento das habilidades socioemocionais se tornou nossa missão porque é a nossa paixão. De tanto estudar o assunto, sabemos bem o quanto elas fazem diferença na formação de cada indivíduo – pensando em cada um, mas pensando também no coletivo. Uma sociedade composta por sujeitos mais conscientes de seu papel no mundo é uma sociedade mais promissora.

Parece fácil falar, e a teoria é sempre bonita – mas uma pandemia chegou para cobrar de todos nós a prática. Em tempos difíceis, o mundo nos cobra mais empatia, cooperação, criatividade, resiliência, responsabilidade e cuidado.

Hoje em nosso blog recebemos uma colaboração da Renata Bento, psicóloga e membro de Federações e Sociedades internacionais de psicanálise. Em seu texto, ela fala sobre como cuidar da saúde mental (em especial, das crianças) enquanto lutamos contra o coronavírus.

Coronavírus – A difícil tarefa de lidar com uma nova realidade sem perder a saúde mental

A vida prega peças, é uma caixa de surpresas com acontecimentos inesperados e até mesmo impensáveis. Estamos diante de uma realidade obscura, invadidos por algo silencioso e invisível onde é preciso que todos se recolham; não são férias, é cuidado, é preservação. Como dizemos nós, psicanalistas: a realidade se impõe! E o que fazer com ela?


Esse será particularmente um período de angústia e de muitos desafios, pois é preciso lidar com a própria cabeça e com as próprias emoções; se isso ocorrer de forma minimamente equilibrada, servirá para ajudar as crianças a se manterem mentalmente saudáveis.


Lidar com o imprevisível, com a incerteza, com sentimentos ambivalentes requer serenidade para que a mente continue funcional e produtiva. Pensando nisso, é importante que os pais e responsáveis consigam manter a calma para que os pequenos fiquem bem.


A mente debilitada faz com que os pensamentos fiquem confusos, negativos e deturpados, o que traz um enfraquecimento mental tornando as pessoas mais sujeitas a outro tipo de vírus: o vírus da desordem emocional, que traz, como sintomas a ansiedade, o medo e o pânico que contaminam a todos que estão em volta, piorando enormemente o próprio estado emocional e, consequentemente, atingindo às relações dentro de casa.
 

Diante do caos lá fora, é preciso que se busque a harmonia dentro de casa. Sentiu que está estressado demais, se afaste das crianças e espere a mente se acalmar; não jogue em cima delas a angústia porque elas não têm maturidade mental e emocional para processá-la. O aparelho psíquico de uma criança é iniciante, não aguenta o tranco de uma dura realidade. Por isso elas precisam dos adultos.


É importante conversar com os pequenos, ajudá-los a expressarem seus sentimentos de medo e angústia. Não os proíba de falar, ajude-os a colocar para fora o que sentem, da forma deles. Se eles se mostrarem preocupados e aflitos, convide-os a conversar sobre o que sentem ou desenhar para colocar para fora. As crianças muitas vezes não conseguem colocar em palavras, mas se expressam muito através de desenhos e/ou brincadeiras. É preciso explicar que o momento é delicado para todos e que o melhor remédio é esse mesmo, ficar em casa. É tempo de usar a criatividade, a imaginação e, principalmente, a capacidade de se adaptar a uma nova realidade.


Em caso de pais separados, estabeleça um contato por vídeo diariamente. Essa é uma situação atípica onde o bom senso deverá mais do que nunca ser utilizado. Aos pais, tentem manter a briga e a disputa pela criança afastadas no atual cenário. É comum que, em momentos de angústia, a criança busque mais contato com os pais, tentem não evitar essa aproximação e sim trazê-los para perto. Não aflija as crianças com seus próprios medos.


A solidão fará parte do dia a dia, além da incerteza e do medo da contaminação, e isso pode agravar ou revelar problemas emocionais já existentes. Conviver com tudo isso exigirá uma grande capacidade de equilíbrio para lidar com as oscilações e se adaptar. Manter a calma é importante para preservar o próprio estado emocional e passar segurança para as crianças.


Para isso, evite ou reduza o contato excessivo com noticiários, que podem causar ainda mais ansiedade; saiba que está fazendo o que é preciso, que é estar em casa. Se for inevitável o contato com as notícias, estabeleça o próprio limite e busque fontes confiáveis, evitando boatos que surgem em grupos de aplicativos. Evite também o consumo de álcool, cigarro ou drogas que são formas nocivas e equivocadas de lidar com a ansiedade e o estresse.


Esse tempo poderá ser usado para ler um livro, fazer receitas, arrumar coisas em casa, escutar música, conversar por telefone ou vídeo com familiares e amigos, fazer cursos online e muitas outras coisas. Profissionais de saúde estão trabalhando incansavelmente. Nós, psicanalistas, estamos escutando diariamente a angústia de nossos pacientes adultos e crianças, através de atendimentos online. Isso ajuda a manter a lucidez e seguir adiante. Não tema pedir ajuda, se achar necessário.


Se puder, crie grupos de interação online para a discussão de livros, artes e novas ideias. A tecnologia pode ser usada como grande aliada, seja para jogos, leituras, filmes ou estudos. Busque estabelecer uma rotina. A rotina organiza a cabeça, e a mente produtiva ajuda a manter o equilíbrio emocional.
 

Com as crianças, busque mesclar o uso da tecnologia com a prática de atividades lúdicas como desenhos, pinturas, recortes, massinha, sucata, cabana de lençol, entre outras. Existem muitas formas de atividades através da tecnologia que são bacanas e pedagógicas para as crianças.


É tempo de aproveitar a oportunidade para ensinar as crianças de acordo com sua faixa etária a realizar algumas tarefas domésticas como arrumar a própria cama, colocar roupa no cesto e na máquina de lavar, arrumar a mesa, varrer e aspirar a casa, regar as plantas, tirar o pó, ajudar na cozinha, pendurar a roupa, arrumar os brinquedos e armários. Os afazeres domésticos ajudam no estabelecimento e na manutenção de uma rotina com as crianças, além de prepará-las para a autonomia e a independência.


Mantenham a distância física, mas busquem proximidade emocional. Reforcem os laços através de mensagens, interações por vídeo, e-mails. O que não tem remédio, remediado está. Agora é suportar até que surjam novas possibilidades. Como dito pelo poeta Guimarães Rosa,

a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”.

Vamos em frente utilizando a parte boa de nós mesmos e criando novas formas de lidar com a vida. Sejamos corajosos.

 

Renata Bento
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